Mostrando postagens com marcador Contos e Crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos e Crônicas. Mostrar todas as postagens

18/06/2013

Três ensaios sobre a manifestação

Ensaio 1 - Da Etimologia.

manifestação
(latim manifestatio, -onis)


s. f.

1. Acto de manifestar ou de se manifestar.


2. Expressão, revelação.

3. Demonstração pública dos sentimentos ou ideias dos membros de um partido ou de uma coletividade.

4. Conjunto de pessoas reunidas publicamente para mostrar ou defender determinadas ideias ou posições.


manifestar 

v. tr.
1. Tornar manifesto, patentear, publicar.

2. Dar indícios de.
3. Expor, apresentar.

v. pron.

4. Declarar-se.

5. Aparecer.

6. Tornar-se visível, descobrir-se.





Entre os 10 significados listados justamente o último é o que melhor explica as atuais manifestações no Brasil. Claro que há múltiplas demandas, afinal temos um governo gigante que fornece suas tetas majestosas para os políticos e servidores públicos. Mas, o principal propulsor desse movimento é a necessidade de um povo que é impotente em relação às decisões políticas se expressar. 

O corolário da corrupção são serviços públicos de péssima qualidade.
O paradoxal nisso tudo é que o cidadão, embora saiba que não pode confiar em seus políticos, demanda a estes mesmos políticos mais serviços. Ou seja: Quando pedimos passe livre estamos pedindo para o governo aumentar seu nível de gastos e esquecemos que são nossos próprios impostos que financiam esses gastos, esses roubos. Esse paradoxo é um fato estilizado nas ciências políticas, não estou dizendo nada de novo.
O senso comum, em síntese, tem ojeriza à economia de mercado, e demanda um Estado maior, ao mesmo tempo em que sabe que quanto maior o Estado mais corrupção.
As regras estão postas e são bastante simples de entender, porém difíceis de solucionar. Todavia, parecemos não querer discutir as externalidades dos mercados e dos políticos, só assim poderemos equacionar esse problema de forma a minimizar os custos desse processo, que evidentemente se apresenta dificultoso. 

Ensaio 2 - Da Marcha.

Irmãos, vamos ir com mãos entrelaçadas.
Fechem os olhos e olhai uns para os outros,
Pois só sem ver que se vê alguém mais.

Que suas bandeiras deem as mãos a cada balançar.
As causas são muitas, mas menos que as vozes.
Os gestos confusos, mas, se o caos está instaurado,
Um pouco a mais de desordem irá atrapalhar?

Marchem mensagens de paz e justiça.
Leve vinagre e revide não.
Com quanta paz se constrói uma canoa?
Com quanto amor se reinventa uma nação?

Ensaio 3 - Da Gestalt, Entropia e Caos.

Quando a multidão se encontrou percebeu que não é a soma das partes que faz o todo, mas, inversamente, que cada um ali presente estava sendo totalmente definido por aquele ambiente, aquela energia. Não havia uma única causa que fizesse cada indivíduo estar ali presente, e, por isso mesmo, o grupo não poderia ser definido à partir da agregação dos sentimentos individuais de seus componentes. Na verdade nenhum grupo pode, mas isso se tornou mais evidente nas manifestações que têm ocorrido nos últimos dias.
Mas o que fez a multidão se reunir?
Minha interpretação é que tínhamos um sistema com entropia altíssima e necessitando apenas de um pouco mais de energia para gerar uma desordem completa. Um pequeno aumento na passagem do ônibus, nesse contexto, pode ser suficiente para que o sistema entre em caos. Todavia, isso não é por si só suficiente para afirmar que o sistema não vá voltar logo para o equilíbrio, sem nenhuma modificação, aliás é essa a tendência. 
Até o momento não há nenhum elemento que subsidie a possibilidade de crescimento e organização desse movimento. Por mais bela que seja a manifestação, é muito difícil imaginar que se colham frutos nessa empreitada. Profundas mudanças no Brasil só irão acontecer com décadas de lutas e reivindicações, com melhoria do sistema educacional público e com a ascensão de uma nova classe de políticos, que maximize o capital social e não o capital político. 
Enfim, viver é melhor do que sonhar.
Mas sonhar é preciso.


10/06/2013

Amor Matinal

Acordaram. Entreolharam-se. Ela levantou.
Disse um par de frases randômicas e foi escovar os dentes.
Ao menos soavam aleatórias a Ele, que acordava confuso.
Ele proferiu sentenças um tanto desagradáveis,é verdade.
Se fossem duas crianças brigando teriam dito que Ele quem começou. Ou eram?
Ele logo disse que ela parecia uma velha, que era correta demais,
organizada demais, que tudo havia de estar em seu correto lugar o tempo todo!
E que é necessário chutar o balde de vez em quando, deixar a casa de cabeça para baixo.
Ela não deixou barato: "Se eu pareço uma velha você parece uma criança.
Uma de criança de quantos anos é você, 10 ou 12?"
Respondeu: 12!  (Afinal, entre as duas opções ter 12 anos parecia a melhor)
Fizeram silêncio...
Ela ficou ranzinza.
Ele fez biquinho.

Após um par de minutos caóticos lembraram que o amor é cego...

Ela já o via um tanto mais maduro.
Ele já não via mais rugas em seu rosto.


10/12/2012

Outra foto, mesmo fato.

Conversando com o porteiro do prédio:

Ele: Já conheceu a cidade?

Eu: Havia vindo em dois carnavais em Recife e tive a chance de conhecer alguns pontos turísticos.
Já tem 15 dias que estou morando aqui e procurei apartamentos em Imbiribeira, Boa Viagem, Parnamirim, Várzea e Cidade Universitária, e fiz tudo caminhando, então deu para conhecer um pouco. A Av. Caxangá, por exemplo, já caminhei toda várias vezes. Enfim, não posso dizer que conheço bem ainda a cidade, é uma cidade muito grande, né?

Ele: É... O problema daqui é a violência...  Primeiro lugar no Brasil!

Eu (nota mental): Já vi esse filme antes...

Eu (nota mental 2): Dizer que uma pessoa que assalta é violenta é uma ideia elitista e que não leva em consideração nossa desigualdade social. Quem assalta é vítima da violência, parece que a força do capital inverteu nossos valores...


______________________________________________________________

(10 dias antes...)

Após conhecer um apartamento em Boa Viagem entro no elevador e bato um papo com um vizinho em potencial:

Ele: É morador novo?

Eu: Vim conhecer o apartamento.

Ele: Gostou?

Eu: Sim, a vista é sensacional! Vista pro mar!

Ele: Ah... Tu tem que ver o meu! É de frente pra praia, tu olha da janela e vê aquele marzãããããão!
Olhando para um lado tu vê até "não sei onde" e olhando para o outro lado tu vê até "também não entendi o que ele disse".

Se aprendi algo do povo recifense, provavelmente ele disse que para esquerda os olhos dele alcançam João Pessoa e olhando para direita, com uma pequena dificuldade, é capaz de ver Maceió...



05/12/2012

O primeiro retrato de um povo




O primeiro retrato de um povo é apenas uma foto entre muitas que poderiam ser tiradas;  mas, o fotógrafo espera fazer um registro que simbolize aquele povo, sem estereotipá-lo. 
Naturalmente, um povo é um álbum e, não obstante, para algumas figuras ecléticas que se encontram por aí poder-se-ainda-ia dizer que são fotos que nunca foram batidas.

A minha primeira imagem do povo recifense é de um povo MEGALOMANÍACO, sem exageros. 
Recife é a versão nordestina de Itu. Se um representante do Guinness Book conversar com um recifense, desejará fazer uma versão do livro só para a cidade. Aparentemente, a capital do nordeste é detentora de vários recordes com os quais ainda não estou familiarizado, como a maior avenida em linha reta do mundo. Fosse recifense, diria que a cidade é recordista mundial em recordes.
Tudo aqui é maior; a menor avenida do mundo, onde estou hospedado, é tratada como a avenida mais compacta do mundo, de forma que até as pequenas coisas tornam-se as maiores, basta mudar a perspectiva.



De todas as estórias que ouvi aqui, pelo menos uma me pareceu bem razoável. Durante um agradável passeio dominical de fusca pelo recife antigo, Adenildo me apresentou os dois principais rios da cidade: Beberibe e Capibaribe.
Em qualquer canto de Recife sabe-se, e não há nenhum exagero nesse fato estilizado, que os dois rios são tão grandes, e o volume de água que deles emana é tão impressionante, que eles se juntam para formar o oceano atlântico!

Paro por aqui, pois, se quisesse contar todas as façanhas da cidade, provavelmente escreveria a maior  crônica do mundo.

20/06/2010

Bola de Cristal

Um cara um dia me confessou que queria saber o que iria acontecer. Dizia estar cansado dos inúmeros imprevistos que o dobravam a cada esquina. Gostaria de seu futuro prever e por isso veio com essa ideia muito maluca: "Uma amiga dum amigo meu disse que o primo dela conhece um feiticeiro, topa ir comigo?"
"Me inclua fora dessa", respondi cético, não podia acredita em bolas de cristal e coisas do tipo, quanto mais me aventurar a ir em sua busca em um local ermo. De qualquer forma o tal mago da floresta realmente existia, e vendeu a meu amigo a tal bola capaz de mostrar o futuro. O mais absurdo dessa estória não é o fato de realmente existir um maluco no meio do nada vendendo pedaços de vidro que anunciam o porvir, pior que isso é que o artefato comprado pelo meu colega realmente funcionou, aliás, praticamente funcionou. Isso porque, por um lado, a bola de cristal realmente mostrava o futuro de forma precisa. Bastava uma olhadela na bola e o dia inteiro seria narrado detalhadamente. Meu amigo passou a saber exatamente o que iria acontecer, e é por isso que digo que o artefato praticamente funcionou. No início foi tudo festa, meu amigo me contava, eufórico, sobre o engarrafamento que deixara de pegar por olhar sua bola de cristal, sobre como era divertido ir ao estádio de futebol apenas nos dias de vitória, entre várias outras coisas, em suma passou a evitar um sem número de contratempos. Com o passar do tempo, todavia, passou a se sentir deprimido. Parou de se supreender, por mais incrível que fosse o que iria acontecer. E pôde finalmente perceber que a graça da vida é não saber. Ele tava sempre preparado, nada mais o deixava assustado. E ele queria voltar a não saber, porque o imprevisto maltrata, mas sua falta mata.
Transtornado, voltou a procurar o feiticeiro, tinha em mente devolver o produto (embora tivesse perdido a nota fiscal) e pedir seu dinheiro de volta. Quando chegou lá, todavia, o tal feiticeiro já havia se mandado para outra cidade. Se deu conta, enfim, que aquele feiticeiro era um golpista forasteiro.

19/03/2010

O dia que a guerra parou

Pela primeira vez, o clima em todo o planeta seria mesmo. Não mais haveria a neve em contraposição ao sol, nem o deserto de uns, nem a floresta dos outros. Os mais variados climas e vegetações, que diferenciam os países e dentro deles, dariam lugar a uma homogênea e generalizada sensação de pânico.
No princípio parecia apenas uma brincadeira de pessoas desocupadas e engenhosas, mas o tom crescente das ameaças, vindo de todos os lados e em todas as línguas, fazia nascer uma interrogação do México ao Japão. Vídeos brotavam na internet, a transmissão do programa favorito na televisão era subitamente interrompida, estava nos outdoors, em canções na rádio, nos teatros, e, principalmente, na boca do povo.
As ameaças atingiram os quatro cantos da terra, até mesmo ilhas minúsculas que viviam ainda isoladas do suposto homem desenvolvido. Tão isoladas que não tinham até então um meio de se comunicar com o resto do mundo, isso é, praticavam um dialeto ainda desconhecido. Pesquisadores ligados à área da linguística foram enviados aos destinos mais remotos a fim de aprender estes dialetos, não pela potencial ajuda bélica dos arcos e flechas desses povoados, inúteis frente à nova ameaça, mas sim para descobrir se estes locais tão remotos também receberam sinais. A confirmação ratificou o que já era do senso comum àquela altura.
A movimentação de luzes fora do comum no céu anunciava o pior. Era verdade, os ETs invadiriam a terra.
Muito embora a questão da faixa de gaza ainda não estivesse decidida naquele ano de 2.100, ela passaria a ser um problema irrisório, isso porque se judeus e palestinos não se acertassem naquele momento seriam esmagados. E a questão da faixa de gaza passaria a ser disputada por marcianos, que diziam ser ali a terra prometida por Marcianés, e os jupterianos. Foi esse o primeiro encontro improvável na terra (união no oriente médio, quem diria?), e a questão da faixa de gaza tornou-se irrelevante diante da ameaça maior, dos ETs, que prometiam começar sua ação pela terra prometida.
Como os Estados Unidos nem a Europa foram ameaçados a princípio, não deram crédito. E mesmo o início das ofensivas dos ETs a destruir o Oriente Médio não criou grandes sobressaltos nos comandos militares dos países mais desenvolvidos.
Quando o primeiro disparo de laser atingiu a peruca branca do presidente americano, na casa de mesma cor, ficou cristalino que era realmente uma ameaça global, agora sim poderíamos ter certeza. Os ataques dos ETs eram tão coordenados que os humanos logo perceberam que a única forma de combatê-los seria a união de todo o planeta. O intercâmbio de tecnologia, informação, armas, técnicas de guerra, era a única forma de o mundo reagir, e assim o foi. Diante de forças nunca antes vistas, o planeta abriu mão de suas desavenças, os recursos foram todos colocados numa mesma conta e distribuídos por todo planeta em hospitais, reconstrução civil, escolas etc. Fazia mister uma língua única para os soldados das diversas nações que lutavam lado a lado nas frentes contra o mal. O mundo todo passou a falar o Esperanto. Língua da paz, destituída de qualquer identificação cultural, nacionalista. O que fez os homens perceberem que, no fundo, não são tão diferentes quanto imaginaram. E, todos juntos, puderam os homens expulsar os alienígenas.
Durante algum tempo o mundo viveu uma paz desconhecida até então. Estavam todos no esforço de reconstrução do planeta, que havia se transformado em grande campo de guerra.
A ideia que predominava agora era a distribuição justa dos recursos naturais e intelectuais. O homem passou a acreditar, pela primeira vez, que quanto mais equilibrada fosse a distribuição dos recursos, melhor seria a chance de os homens conseguirem combater outra invasão alienígena caso viesse a se repetir. Assim, durante alguns anos o mundo foi inteiramente reconstruído de forma equitativa, e o conhecimento deixou de ser propriedade, passou a ser desejável que qualquer técnica e conhecimento novos fossem espalhados a todos.
Com o passar dos anos, todavia, e a ausência de outras ameaças extraterrestres, os homens começaram a ficar impacientes: e se eles nunca mais viessem? E essa especulação, pouco a pouco, tornou-se uma realidade palpável. Os ETs pareciam coisa do passado, não haveriam de voltar. E com a convicção de que não mais seriam incomodados por presenças estrangeiras, os humanos puderam voltar a guerrear entre si em paz...

10/03/2010

O curioso caso de Tio Toco

De repente eu vi a luz, não sei bem o que aconteceu. 
Foi assim... ao abrir os meus olhos, pelos quais não podia ver, 
a imagem embaralhada, só vultos avistava.
Parecia muito mais um filme antes visto na TV, 
só que a imagem não desenrolava, parecia retroceder.
O sol nascia a oeste e eu parecia me livrar da peste que antes me matou,
 não sei porque mas aqui estou.
Foi aí que alguém falou para mim,  não sei de onde veio mas dizia assim:
"Essa é outra chance para você, vê se dessa vez faz valer. 
Você não foi feliz, mas não foi por não merecer. 
Então tem outra chance de viver."
Essa estória termina para outra começar, que com certeza errado não vai dar.
Essa estória termina assim, no momento em que nasci.

Gu gu dá dá.

03/03/2010

Crônica Patética

Hoje descubro que esse mundo, que por uma vida tentei compreender, está além de nosso alcance, pois mundo não é, mundos são. Tantos quanto são as vidas dos homens e mulheres que andam pra lá e pra cá, sem aspiração, até que encontrem um ao outro, e se deem por satisfeitos.
Pois o mundo, no fundo, é o conjunto das pessoas; dos casais e suas estórias. Das avós e avôs, e suas memórias. Dos filhos e filhas, e fantasias. Cada macaco no seu galho. Isso quer dizer, cada pessoa está encaixada em uma família, que, por sua vez, cabe a alguma camada social, com costumes, tradições, enfim, com alguma coerência.
Penso na mulher que apanha do marido, e busca consolo na Maria da Penha, que pena.
Mas isso é tão distante da minha realidade, minha crítica não tem contundência, não tem conteúdo, porque esse não é o meu mundo.
Meu mundo é essa escrivaninha, com livros, um laptop, cd's.
Ler Drummond e Pessoa, escutando Jobim, é o mundo que me encanta, mas é só meu mundinho.
Enquanto isso, nas ruas, a vida continua . E, lá fora, as balas continuam perdidas.
Prefiro a ciência de Science: "há fronteiras nos jardins da razão".

26/02/2010

Amor em conta gotas

Amor em conta gotas

Fui a um farmacêutico, não muito convencional, e lhe pedi desesperadamente um remédio:
- Doutor, você precisa me ajudar.
- É o coração?
- Doutor, como adivinhou?
- Seus olhos, inchados, logo anunciaram.
- Pois bem, qual a solução? Farei qualquer coisa.

A solução que me ofereceu, infelizmente, em nada me ajudaria, pelo menos com essa garota, causa de minha enfermidade.
Segundo me afirmou, o amor é um jogo, e se um dos dois não joga, o outro logo se cansa da brincadeira.
Receitou-me amor em conta gotas.
- Mas Doutor, como é que toma esse remédio?
- Não toma, dá.
- Ahhhh ! então devo dar este frasco para ela?
- Sim.
- E que gosto tem?
- Depende de quanto ela tomar.
- Então já sei; venho por trás devagar, agarro-a fechando-lhe os olhos e viro todo o frasco em sua boca de uma vez. Quando tiver bebido todo o frasco irá virar para trás, e, com olhar tenro apaixonado, outro beijo, quiçá mais quente que o primeiro. Certo doutor?
- Nada disso. Te disse que o remédio é amor em conta gotas. Sei como é difícil olhar aquela garota e não falar mil vezes o quanto é linda, mas, como disse, o amor é um jogo. E o único remédio é ir com calma, passo por passo, frase por frase. Te gosto, te adoro, te amo. Dia, mês, ano. Compreende?

Àquela altura percebi que não haveria mesmo solução para meu problema, sabia perfeitamente que ali estava por não ter usado o remédio conforme a bula. Não sei o que foi, alguma ilusão juvenil, pensei que seria diferente. Que poderia me abrir com ela, e que me compreenderia e se interessaria por mim... Se pelo menos seus olhos não fossem tão inebriantes, e seu olhar não me petrificasse, qual tal o da medusa, daria gota a gota o remédio para meu benzinho.
Mas, como a vida não é tão fácil, volto pra casa e me sento no sofá. Olho pro enorme frasco, que seria suficiente para anos de relacionamento. Tiro a tampa e bebo tudo de uma vez.
Esta noite me embriago.

25/02/2010

Viva a globalização !

Chego soberano ao bar do velho quase-caindo-aos-pedaços e estou pronto para oferecer ao jeca caquético o que há de mais moderno no campo da ergonomia segundo as pesquisas de especialistas do mais alto calibre. O 70 anos curvou 90 graus entre barriga e pernas para passar por baixo da bancada daquele bar, que, como a maioria, possui uma tábua de granito (ou similar) que liga as duas paredes laterais não sobrando opção ao funcionário a não ser curvar-se cada vez que precisa buscar uma cerveja do outro lado do balcão. Imaginei que o velho simplesmente herdara por mimetismo o estilo seja-ginasta-e-passe-por-baixo-da-bancada e não se dera conta que é incômodo para suas preciosas vértebras continuar o que vem fazendo há décadas. Assim, com todo respeito que encontrei, pronunciei aquilo que parecia uma observação idiota, mas, no mínimo, me daria a satisfação de ajudar o sujeito senil:
"Por que você não corta um pedaço do mármore para não precisar se abaixar dessa maneira tão desconfortável ?"
Ao sugerir o óbvio tinha a sensação de que os esforços dos centros de pesquisa de ponta acabavam por chegar aos quatro cantos do mundo (ainda que com alguma defasagem) graças ao que chamamos globalização.
Naquele dia nós nos ensinamos mutuamente. Eu com minha dica sobre cuidados com o dorso. Ele com uma resposta que francamente não entendi bem, não só pela carência de dentes na boca do dito cujo, mas também pelo sentido da frase:
"Você gosta é de moleza, né ??? "

07/02/2010

Ímã

E pensar que fui àquela festa por acaso.
Apesar de ser a festa de um amigo, não pretendia ir.
Era apenas mais um churrasco, sem nenhuma comemoração especial.
Acho que foi o vento que me levou. Levou mas nunca me trouxe de volta para onde morava, isso porque a noite foi ao mesmo tempo maravilhosa e trágica. Maravilhosa como sua irmã. Trágica como a saudade. Pode parecer estranho questionar um momento tão bom quanto aquele. À medida em que as pessoas iam dormir, mais perto me tornava de minha primeira (e talvez única) chance de falar a sós com ela.
Desde o começo da festa fui completamente absorvido por sua beleza inebriante e seu jeitinho que dá vontade de passar a vida inteira observando. Mas naquele momento, enfim, estávamos sós, e apesar de seu beijo que até hoje não desgrudou de minha boca, não posso dizer se foi bom ou ruim o que aconteceu. Se alguém te oferecesse a fruta mais doce do mundo, mas dissesse que só poderia experimentar, será que o prazer compensaria a vontade de repetir?
Se fosse sábio como Vinícius de Moraes, não estaria me perguntando se foi bom ou ruim. Diria que foi bom e ruim. Entenderia a tristeza não como oposto da alegria, mas como sinônimo da paixão, da saudade. Entenderia essa vontade de vê-la uma vez mais e pegar de volta aquela parte de mim que ficou para trás aquela noite, e que me deixou um vazio no peito.
Mas, se não sou Vinícius, apenas olho fixo sua foto.
E imagino...

28/01/2010

O homem é altruísta ou egoísta?

De férias, recluso no mato, anexo à minha mentalidade citadina, um episódio me remeteu à questão que dá título a esta crônica.
Fui a uma horta comprar um bocadinho de cidreira para o chá da tarde e pedi ao moço que me arranjasse quantidade suficiente para duas pessoas. Como a quantidade necessária era bastante modesta, o vendedor não quis me cobrar (o que descobri mais tarde através de minha amiga ser comum naquele vilarejo).
Não pude entender a transação. Seria incorreto aceitar sua mudinha sem dar nada em troca. Como não tinha nada além de dinheiro tratei logo de sacar o que carregava comigo, talvez 3 reais ou menos. Fiquei realmente impressionado dele não me cobrar ! E quis retribuir sua benevolência da única maneira que pude.
Se tivesse cobrado os 3 reais que acabei dando, eu acharia um absurdo. Me rejeitaria a comprar novamente deste homem que taxaria de ladrão ou pior.
.
.
.
O homem dança conforme a música, é ação e reação.

24/01/2010

Tarja Preta

Após seu habitual pileque, e o elemento surpresa tarja preta, Vilfredo encamimou-se a uma certa festa. Os primeiros 5 minutos foram bem, embora seus olhos vissem as imagens passar como aquela opção do windows que deixa o rastro do mouse ("display pointer trails"). Conseguiu reconhecer as 10 primeiras pessoas (pensava, todavia, não serem todos gêmeos) e, na maioria dos casos, trocou meias palavras sem grandes sobressaltos. Foi a troca de olhares com um sujeito que pensava não conhecer que mudara a sorte de sua noite. Apesar de frente a frente com a figura, não a podia ver com clareza, mas sabia, definitivamente, que o encarava sem pestanejar. Perguntou insisitentemente, tom crescente, qual o problema. Mas não obtia resposta, apenas chamava a atenção da recém-plateia. O final da estória não poderia ser outro, o dito cujo caiu no braço com a surpresa e o constrangimento. No dia seguinte acordou com curativos em seus braços cortados, mas não podia lembrar o motivo. Para piorar teve que ouvir a estória de seu companheiro de quarto nordestino, repentista, que lhe acompanhara à festa mas não teve tempo de evitar o infortúnio. Ao mesmo tempo que levava Vilfredo ao hospital, na noite anterior, preparava sua rima irônica para o dia seguinte. Não fosse o estado dos braços de Vilfredo teria certaente achatado um pouco mais a cabeça de seu amigo quando lhe contou o acontecimento:
_
O nosso herói não resistiu,
À cabeça sua raiva subiu,
E espancou, forte e viril,
O espelho do canto

Hóspedes